Capítulo 4.12 — Catálogo e governança de fontes de conhecimento¶
🎯 Objetivo¶
Consolidar, em um único lugar, uma responsabilidade que aparece espalhada pelo resto do livro: saber quais fontes de conhecimento existem, de quem são, de onde vêm, quão atuais são e quem pode usá-las. RAG, GraphRAG, memória semântica e fine-tuning todos consomem "conhecimento corporativo" - mas raramente alguém mantém o inventário governado dessas fontes. Este capítulo trata desse inventário.
🧭 Nota sobre o nome. "Registro" / "catálogo" de fontes de conhecimento é vocabulário estabelecido de data governance (catálogo de dados, registro de fontes) - não é nome de produto. Por isso é usado aqui. Nomes como "Memory Bank", "Engine Orchestration" ou "Evaluation Center", às vezes propostos para organizar capacidades de uma plataforma de IA, não são adotados neste livro: soam a módulo comercial e os conceitos por trás deles já têm nomes melhores e mais precisos (respectivamente memória persistente - Cap. 3.6, harness/runtime - Cap. 3.3-3.4, e eval harness - Cap. 2.11, 5.4). O conceito de catálogo de fontes, por outro lado, não estava consolidado no livro - daí este capítulo.
🧠 Conceito principal¶
Um catálogo de fontes de conhecimento é o metadado sobre as fontes, distinto do índice vetorial ou do grafo em si. Para cada fonte (uma coleção de documentos, um banco, um grafo, um feed externo), ele registra:
| Atributo | Por que importa |
|---|---|
| Identidade e descrição | Saber o que é a fonte e o que ela cobre |
| Owner | Quem responde por correção, atualização e acesso |
| Origem / lineage | De onde o dado veio e por quais transformações passou |
| Classificação de sensibilidade | Público, interno, confidencial, restrito |
| Política de acesso | Quais roles/tenants podem recuperar dela |
| Jurisdição / residência | Onde o dado pode ser processado e armazenado |
| Cadência de atualização e freshness | Quão atual é; idade mediana e p95 dos itens |
| Versão | Versão do conteúdo, do pipeline e do modelo de embedding usado |
| Status de ciclo de vida | Ativa, em deprecação, em quarentena, removida |
| Rastreabilidade | Ligar uma resposta de RAG de volta à fonte e à versão exata |
A tese é a mesma do resto da Parte 4: o que não está catalogado não é governável. Sem catálogo, ninguém responde "de qual fonte, em qual versão, veio esta resposta?" - e isso é exatamente a pergunta que aparece em auditoria e em incidente.
🏗️ Como isso aparece em produção¶
O conceito já foi tocado em vários pontos; o catálogo é o que os conecta:
- Ingestão de RAG (Cap. 2.6) produz lineage e classificação de sensibilidade por documento - o catálogo agrega isso por fonte.
- Knowledge graphs (Cap. 2.9) precisam de owner de ontologia e de versão do esquema - entram no catálogo.
- Qualidade de dados (Cap. 1.2) define contratos por dataset - o catálogo referencia esses contratos.
- Supply chain (Cap. 4.9) trata datasets e modelos como artefatos com proveniência - o catálogo de fontes é a face "conhecimento" disso.
- Governança e audit (Cap. 4.11) exige inventário - o catálogo de fontes é parte desse inventário, ao lado do inventário de modelos e agentes.
🚨 Modos de falha¶
- Fonte "fantasma". Um índice RAG aponta para um drive que ninguém mantém; o conteúdo envelhece e ninguém percebe.
- Sem owner. Documento errado é recuperado e citado; não há a quem escalar a correção.
- Mistura de jurisdições. Conteúdo de uma região entra num índice servido para outra, sem registro de residência.
- Reembedding cego. Troca-se o modelo de embedding sem saber quais fontes/índices dependem dele.
- Fonte contaminada sem quarentena. Documento malicioso (vector poisoning, Cap. 4.5) não tem caminho rápido de retirada porque a fonte não está catalogada.
🛡️ Controles e práticas¶
- Catálogo versionado (pode ser um arquivo declarativo, uma tabela governada ou um data catalog existente - o ponto é existir e ter owner).
- Toda fonte tem owner nomeado (técnico e de negócio).
- Classificação obrigatória na entrada de uma nova fonte; fonte sem classificação não entra em produção.
- Política de acesso por fonte referenciada pela policy-as-code (Cap. 4.7) e aplicada no storage/retriever (Cap. 2.7).
- Freshness e indexing lag monitorados por fonte, com SLA (Cap. 5.5).
- Ciclo de vida explícito: aprovação para adicionar fonte, quarentena para suspeita, deprecação com janela (Cap. 7.4).
- Rastreabilidade ponta a ponta: a resposta cita a fonte; a fonte aparece no catálogo; o catálogo liga à versão e ao owner.
📌 Checklist¶
- [ ] Existe um inventário de fontes de conhecimento com owner por fonte?
- [ ] Cada fonte tem classificação de sensibilidade e jurisdição registradas?
- [ ] A política de acesso por fonte é aplicada no storage/retriever, não só no prompt?
- [ ] Freshness e indexing lag são monitorados por fonte?
- [ ] Há processo de aprovação, quarentena e deprecação de fontes?
- [ ] É possível ligar uma resposta de RAG de volta à fonte e à versão exata?
📚 Referências¶
- DAMA-DMBOK — Data Management Body of Knowledge (governança e catálogo de dados): https://www.dama.org/cpages/body-of-knowledge
- NIST AI RMF 1.0 — Govern/Map (inventário e proveniência): https://nvlpubs.nist.gov/nistpubs/ai/nist.ai.100-1.pdf
- CycloneDX — ML-BOM (proveniência de datasets/modelos como apoio): https://cyclonedx.org/capabilities/mlbom/